Vagar, andar à toa, vagabondear ( sei que essa não é a grafia correta...mas prefiro a estética à ética). Tudo isso configura o sistema nervoso central do nomadismo: não gostei daqui, vou me embora. Claro que estou simplificando, mas de um modo bem geral as populações nômades mudavam de ambiente quando este não mais as provinha das suas necessidades. Conhecendo a espécie humana como conheço, duvido que tais necessidades fossem apenas as básicas. Não é difícil imaginar um diálogo casual:
_ Hã,querido?
_Grrruuummmmpf?( os homens não mudaram realmente )
_ Andei pensando...o sol aqui não é bom. As crianças estão pálidas, as peles não secam direito...
_Ninguém reclamou.
_ Quem você está chamando de "ninguém"? E eu não estou reclamando: estou pensando.
_(Olhar estupefato): Você o quê??
_(Olhar de piedade): Esquece. Estou apenas dizendo que podíamos ir...sei lá, mais para o leste, depois daquela montanha ali, tá vendo?
_Acabamos de chegar, mulher! Como vou convencer o pessoal?
_Não estou supondo que você faça isso. Eu vou chamar de...turismo. As mulheres vão adorar, você vai ver.
_E quanto aos homens?
_Ahhh, bem, eu não tinha pensado nisso, mas vocês podem descansar da mudança, dormir, pescar, beber aquela gororoba de cevada que eu sei que os rapazes guardam em sacos dentro do rio...aliás, deixa que eu arrumo as malas.
Nasce uma tradição várias vezes milenar!
Não é vagabondage...é turismo. Mas e se fosse permanente, como na época do nosso diálogo ficcional? Bem, vamos deixar um especialista falar: Com vocês, The Wandering Earl. Ele é o cara: está há anos viajando sem parar. Como ele consegue? Bem, com pesquisa e tecnologia aplicados ao ato mais natural do homem: andar.
http://www.wanderingearl.com/
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Dedica-se à produção e compartilhamento de informações sobre nomadismo digital, tecnologia da informação, sustentabilidade,antropologia digital,e qualquer outra área do conhecimento capaz de alimentar a massa crítica de indivíduos que ousam pensar por si mesmos.
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sábado, 9 de julho de 2011
domingo, 5 de junho de 2011
Cirurgia Plástica
Achei dois documentários sobre o futuro das soluções arquitetônicas recicláveis. A 1ª trata da incrível história do "Plastiki", um improvável veleiro feito de garrafas pet. A 2ª é o gigantesco prédio "verde" da capital de Tai Wan, Tai Pei, construído de milhares de tijolos modulares de pvc chamados "polli-bricks".
Um país como o nosso, que só parece aumentar as estatísticas de gasto indevido e injustificável de CO2 com a falta de políticas públicas minimamente aceitáveis para financiar alternativas de sustentabilidade bem poderia se inspirar nessas histórias. Já pensaram em estádios e vilas olímpicas feitas de garrafas pet? Seria perfeito...se não fosse o inconveniente de ninguém ( a não ser a sociedade como um todo e o ambiente natural, é claro) ganhar nada com isso.
Ao lado disso, tentativas silenciosas e arrojadas estão sendo feitas. Há algum tempo, descobri que na distante Europa - que todo mundo sabe que fica a anos luz de navio daqui - alguns arquitetos de vanguarda estavam usando containers, daqueles que vem e vão levando mercadorias nos navios e que usualmente apodrecem nos portos, como matéria prima para construção civil.
Elegante, simples, bonito...e reciclável, portanto com boas chances de ser melhor do que o tipo de construção caro e ineficiente ( mas extremamente fácil de ser superfaturado) que fazemos aqui na Bananolândia. A boa notícia é que dá para qualquer um fazer, nós temos mais de 8.000 km de costa neste país, deve ter um bocado de containers por aí, né? Experimente pesquisar...
http://www.theplastiki.com/video/
http://eslkevin.wordpress.com/2011/03/28/ecoark-taipeis-great-contribution-to-modern-ecodesign-ideas-2010-2011/
http://abduzeedo.com.br/container-city-voc%C3%AA-pode-viver-e-trabalhar-em-um-container
Um país como o nosso, que só parece aumentar as estatísticas de gasto indevido e injustificável de CO2 com a falta de políticas públicas minimamente aceitáveis para financiar alternativas de sustentabilidade bem poderia se inspirar nessas histórias. Já pensaram em estádios e vilas olímpicas feitas de garrafas pet? Seria perfeito...se não fosse o inconveniente de ninguém ( a não ser a sociedade como um todo e o ambiente natural, é claro) ganhar nada com isso.
Ao lado disso, tentativas silenciosas e arrojadas estão sendo feitas. Há algum tempo, descobri que na distante Europa - que todo mundo sabe que fica a anos luz de navio daqui - alguns arquitetos de vanguarda estavam usando containers, daqueles que vem e vão levando mercadorias nos navios e que usualmente apodrecem nos portos, como matéria prima para construção civil.
Elegante, simples, bonito...e reciclável, portanto com boas chances de ser melhor do que o tipo de construção caro e ineficiente ( mas extremamente fácil de ser superfaturado) que fazemos aqui na Bananolândia. A boa notícia é que dá para qualquer um fazer, nós temos mais de 8.000 km de costa neste país, deve ter um bocado de containers por aí, né? Experimente pesquisar...
http://www.theplastiki.com/video/
http://eslkevin.wordpress.com/2011/03/28/ecoark-taipeis-great-contribution-to-modern-ecodesign-ideas-2010-2011/
http://abduzeedo.com.br/container-city-voc%C3%AA-pode-viver-e-trabalhar-em-um-container
sábado, 4 de junho de 2011
Vivendo Aqui e Agora
Esse post vai ser curto. Estou aqui pensando no que pode ser relevante para a tarefa de sobreviver ao nosso próprio sentimento de não pertencimento, nosso senso de fragmentação. Não cheguei a nenhuma conclusão, talvez jamais chegue e provavelmente isso não é tão importante quanto pode parecer. Uma porção de gente está fazendo tentativas, algumas estão listadas abaixo. Para mim, chegar a algum lugar, seja lá qual for, passa por mudar algo verdadeiramente, transpor uma porta anteriormente sequer notada, perceber o que realmente nos move. O que será?
Vamos ver onde conseguimos chegar, apenas assumindo nosso humilde lugar debaixo do sol, em um local qualquer de um mundo qualquer, bem aqui e agora?
http://zenhabits.net/simple-living-manifesto-72-ideas-to-simplify-your-life/
PS: Eu particularmente prefiro a lista curta...mas as 72 são maravilhosas para quem quer começar a ser um nômade digital com carteirinha de sócio ( prometo mandar se alguém pedir :)
Vamos ver onde conseguimos chegar, apenas assumindo nosso humilde lugar debaixo do sol, em um local qualquer de um mundo qualquer, bem aqui e agora?
http://zenhabits.net/simple-living-manifesto-72-ideas-to-simplify-your-life/
PS: Eu particularmente prefiro a lista curta...mas as 72 são maravilhosas para quem quer começar a ser um nômade digital com carteirinha de sócio ( prometo mandar se alguém pedir :)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
"Mas Brutus é um homem honrado"*, ou a pergunta que não quer calar...
..."Para onde vamos e o que será de nós agora?" Vamos encarar a realidade: estamos apenas sobrevivendo, em um mundo no qual não podemos mais confiar em nossas mais ilustres instituições: como podemos continuar a viver tal como dantes no quartel de Abrantes, se elas nem ao menos se dão ao trabalho de nos induzir ao erro? Se nem ao menos fingem querer nos enganar e tanger para o abismo? São tempos perigosos, senhoras e senhores, aqueles nos quais as massas não servem nem ao menos para ser aniquiladas...
Não sei se gosto de ser ignorada pela elite da Civilização, é uma experiência inédita e perturbadora: vamos lá, tirem-me tudo desde que as ilusões de auto importância fiquem intocadas. Estamos aqui, como sempre, dispostos ao auto sacrifício em troca de panis et circensis, eu estou aqui esperando que alguém de fala macia discurse para mim, que me enrole com falácias grandiosas, que me manipule como se eu tivesse 6 anos! Ora essa, estarei pregando no deserto, pedindo em vão que algum burocrata palaciano apareça para mentir para mim?
Oh, tempos, oh costumes! Estou achando que sei o que está havendo: o navio está afundando! Se ninguém à sua volta parece estar apavorado olhe outra vez, na direção dos caras que ditam as regras: tinha que haver um plano "B", afinal de contas. Quando eles param de fingir se importar com o que o cidadão comum pensa, é por que o Titanic já está fazendo água ( e todo mundo sabe o que acontece com a turma do porão em casos como esse...).
Estou dizendo isso para que nenhum dos meus fiéis leitores seja apanhado com as calças - ou quaisquer outros objetos pessoais, como sua dignidade humana, por exemplo - na mão. Para isso, o seu amigo de sempre olha vigilante para as águas revoltas da Internet, sempre em busca de alguma coisa que pareça destoar do habitual "deixa disso". Acabo de pescar uma garrafa com um conteúdo promissor. Guardem esse nome: Michael Ruppert.
Está bem: ele é um ex policial da Narcóticos, norte americano nascido nos EUA, e confesso que com uma bagagem assim dizer que ele é adepto de teorias de conspiração não ajuda em nada a melhorar o seu histórico...mas quem melhor do que um sujeito desses para cavar verdades obscuras? Se não dá mesmo para confiar em ninguém, vamos tentar no gueto dos arautos do caos ( tenho uma queda por Loki*, vocês sabem...).
Ele escreveu dois livros, mas um deles deixou um rastro explosivo: "Cruzando o Rubicão: O Declínio do Império Americano no Fim da Era do Petróleo", em setembro de 2004. Lá ele afirma entre outras coisas que o vice-presidente Dick Cheney, o governo dos EUA e os figurões de Wall Street tinham uma consciência bem desenvolvida a respeito dos ataques de11/09.
Seja lá como for, meu interesse por este cavalheiro não tem nada a ver com assuntos domésticos do país dele, e sim com a acurada precisão com a qual ele analisa a era de pós-pós-pós-modernidade a que estamos assistindo de camarote...e nos convida a participar, digamos mais ativamente do show, antes que não haja nada para ver. Gostei da analogia entre o Império Romano e o "Império" Americano, também.
Então, aqui estão os links, para o site do homem:
http://www.fromthewilderness.com/
E para um filme sobre a análise do pico do petróleo que ele faz. O filme, apropriadamente, chama-se "Colapso". O blog onde está o texto em que eu achei o filme é o genial "Seven Generational Ruminations", onde tem muita coisa boa e está sempre atualizado. Quando der, posto outras coisas de lá, com as devidas traduções.
http://www.7gen.com/blog/david-herron/collapse-michael-rupperts-doom-and-gloom-scenario-describing-whats-happening-us-now
Vou disponibilizar o filme todo no 4shared, ou aqui mesmo, se for mais prático.
* Julio Cesar, de W. Shakespeare
* Loki, deus do Caos na mitologia Viking...e um amigo precioso para aquelas horas em que não se tem nenhum amigo disponível...
Não sei se gosto de ser ignorada pela elite da Civilização, é uma experiência inédita e perturbadora: vamos lá, tirem-me tudo desde que as ilusões de auto importância fiquem intocadas. Estamos aqui, como sempre, dispostos ao auto sacrifício em troca de panis et circensis, eu estou aqui esperando que alguém de fala macia discurse para mim, que me enrole com falácias grandiosas, que me manipule como se eu tivesse 6 anos! Ora essa, estarei pregando no deserto, pedindo em vão que algum burocrata palaciano apareça para mentir para mim?
Oh, tempos, oh costumes! Estou achando que sei o que está havendo: o navio está afundando! Se ninguém à sua volta parece estar apavorado olhe outra vez, na direção dos caras que ditam as regras: tinha que haver um plano "B", afinal de contas. Quando eles param de fingir se importar com o que o cidadão comum pensa, é por que o Titanic já está fazendo água ( e todo mundo sabe o que acontece com a turma do porão em casos como esse...).
Estou dizendo isso para que nenhum dos meus fiéis leitores seja apanhado com as calças - ou quaisquer outros objetos pessoais, como sua dignidade humana, por exemplo - na mão. Para isso, o seu amigo de sempre olha vigilante para as águas revoltas da Internet, sempre em busca de alguma coisa que pareça destoar do habitual "deixa disso". Acabo de pescar uma garrafa com um conteúdo promissor. Guardem esse nome: Michael Ruppert.
Está bem: ele é um ex policial da Narcóticos, norte americano nascido nos EUA, e confesso que com uma bagagem assim dizer que ele é adepto de teorias de conspiração não ajuda em nada a melhorar o seu histórico...mas quem melhor do que um sujeito desses para cavar verdades obscuras? Se não dá mesmo para confiar em ninguém, vamos tentar no gueto dos arautos do caos ( tenho uma queda por Loki*, vocês sabem...).
Ele escreveu dois livros, mas um deles deixou um rastro explosivo: "Cruzando o Rubicão: O Declínio do Império Americano no Fim da Era do Petróleo", em setembro de 2004. Lá ele afirma entre outras coisas que o vice-presidente Dick Cheney, o governo dos EUA e os figurões de Wall Street tinham uma consciência bem desenvolvida a respeito dos ataques de11/09.
Seja lá como for, meu interesse por este cavalheiro não tem nada a ver com assuntos domésticos do país dele, e sim com a acurada precisão com a qual ele analisa a era de pós-pós-pós-modernidade a que estamos assistindo de camarote...e nos convida a participar, digamos mais ativamente do show, antes que não haja nada para ver. Gostei da analogia entre o Império Romano e o "Império" Americano, também.
Então, aqui estão os links, para o site do homem:
http://www.fromthewilderness.com/
E para um filme sobre a análise do pico do petróleo que ele faz. O filme, apropriadamente, chama-se "Colapso". O blog onde está o texto em que eu achei o filme é o genial "Seven Generational Ruminations", onde tem muita coisa boa e está sempre atualizado. Quando der, posto outras coisas de lá, com as devidas traduções.
http://www.7gen.com/blog/david-herron/collapse-michael-rupperts-doom-and-gloom-scenario-describing-whats-happening-us-now
Vou disponibilizar o filme todo no 4shared, ou aqui mesmo, se for mais prático.
* Julio Cesar, de W. Shakespeare
* Loki, deus do Caos na mitologia Viking...e um amigo precioso para aquelas horas em que não se tem nenhum amigo disponível...
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Hacker Manifesto
A discussão sobre o futuro da humanidade é recente : data do momento histórico em que a espécie começou a se ver como tendo conquistado o direito a ter futuro. Temos então como interlocutores de tal diálogo, de um lado a Media e a Ciência, argumentando que somos a 8ª maravilha da Natureza e podemos fazer o que quisermos... do outro a Religião dizendo que somos sim, especiais , mas apenas tanto quanto marionetes o podem ser...e o resto de nós, que faz o possível com a realidade nua e crua. Entre estes há os que chamam a si mesmos de 'hackers'.
Saindo diretamente da atmosfera carregada de tensão da guerra fria, como personagens de um romance cyberpunk, eles são tão aterrorizantes para o stablishment quanto os ratos em bando de Hammelin.Rápidos, despossuídos, nômades tecnológicos, não se deixam seduzir pelas belas palavras da Propaganda ou pelos anseios de redenção da Fé. Eles são diferentes. Eles não se importam. Eles se divertem. Eles pagam o preço.
Eles escreveram o "Hacker Manifesto", que passo a publicar hoje, em capítulos.Não acredito que eles sejam um acidente de percurso da civilização contemporânea : parecem sim, um sintoma de mudança sistêmica, como uma doença auto-imune. Neste sentido, deve ter havido outros, perdidos no fluxo cíclico da jornada humana. Haverá futuro? Se a resposta for sim...gostaremos dele?
" Hacker Manifesto:
I - Manifestação:
Há uma dupla ameaça no mundo, criando o dobro da abstração.As fortunas dos Estados e Exércitos, Companhias e Comunidades dependem disto. Todas as classes em luta _ Proprietários e Fazendeiros,Trabalhadores e Capitalistas _ revelam ainda medo ante a abstração impiedosa da qual suas fortunas dependem. Todas as classes, menos uma : a dos Hackers.
Seja lá qual for o código, nós o quebramos, seja uma linguagem de programação, linguagem poética, matemática ou música, curvas ou colorações, nós criamos a possibilidade de que coisas novas penetrem no mundo. Nem sempre grandes ou boas, mas novas.Na Arte, na Ciência, na Filosofia e na Cultura, em qualquer produção de conhecimento onde dados possam ser coletados, de onde a informação possa ser extraída e onde a partir dela novas possibilidades possam ser produzidas, hackers vão invadir e criar o novo a partir do antigo.
Mas embora hackers possam criar estes novos mundos, não os possuem.O que criamos é hipotecado para outros, para o interesse de outros, para os Estados e Corporações que controlam os meios de produção para construir os mundos que descobrimos sozinhos.Nós não possuímos aquilo que criamos : ao contrário, somos possuídos por.
E ainda nem ao menos sabemos quem somos. Embora reconheçamos em nós uma existência distinta enquanto grupo _ programadores, artistas ou escritores, cientistas ou músicos _ raramente encaramos essas formas de nos representar como nada além de meros fragmentos de uma experiência de classe que ainda está lutando para manifestar-se de modo próprio, como uma expressão do processo que produz abstração no mundo.'Geeks' e 'freaks' se tornaram o que são negativamente, através de sua exclusão pelos outros.
Hackers são uma classe, mas uma classe abstrata, uma classe ainda no ato de hackear-se a si mesma a partir da existência manifesta."
Para o texto completo - em inglês :
http://www.neme.org/main/291/hacker-manifesto
Saindo diretamente da atmosfera carregada de tensão da guerra fria, como personagens de um romance cyberpunk, eles são tão aterrorizantes para o stablishment quanto os ratos em bando de Hammelin.Rápidos, despossuídos, nômades tecnológicos, não se deixam seduzir pelas belas palavras da Propaganda ou pelos anseios de redenção da Fé. Eles são diferentes. Eles não se importam. Eles se divertem. Eles pagam o preço.
Eles escreveram o "Hacker Manifesto", que passo a publicar hoje, em capítulos.Não acredito que eles sejam um acidente de percurso da civilização contemporânea : parecem sim, um sintoma de mudança sistêmica, como uma doença auto-imune. Neste sentido, deve ter havido outros, perdidos no fluxo cíclico da jornada humana. Haverá futuro? Se a resposta for sim...gostaremos dele?
" Hacker Manifesto:
I - Manifestação:
Há uma dupla ameaça no mundo, criando o dobro da abstração.As fortunas dos Estados e Exércitos, Companhias e Comunidades dependem disto. Todas as classes em luta _ Proprietários e Fazendeiros,Trabalhadores e Capitalistas _ revelam ainda medo ante a abstração impiedosa da qual suas fortunas dependem. Todas as classes, menos uma : a dos Hackers.
Seja lá qual for o código, nós o quebramos, seja uma linguagem de programação, linguagem poética, matemática ou música, curvas ou colorações, nós criamos a possibilidade de que coisas novas penetrem no mundo. Nem sempre grandes ou boas, mas novas.Na Arte, na Ciência, na Filosofia e na Cultura, em qualquer produção de conhecimento onde dados possam ser coletados, de onde a informação possa ser extraída e onde a partir dela novas possibilidades possam ser produzidas, hackers vão invadir e criar o novo a partir do antigo.
Mas embora hackers possam criar estes novos mundos, não os possuem.O que criamos é hipotecado para outros, para o interesse de outros, para os Estados e Corporações que controlam os meios de produção para construir os mundos que descobrimos sozinhos.Nós não possuímos aquilo que criamos : ao contrário, somos possuídos por.
E ainda nem ao menos sabemos quem somos. Embora reconheçamos em nós uma existência distinta enquanto grupo _ programadores, artistas ou escritores, cientistas ou músicos _ raramente encaramos essas formas de nos representar como nada além de meros fragmentos de uma experiência de classe que ainda está lutando para manifestar-se de modo próprio, como uma expressão do processo que produz abstração no mundo.'Geeks' e 'freaks' se tornaram o que são negativamente, através de sua exclusão pelos outros.
Hackers são uma classe, mas uma classe abstrata, uma classe ainda no ato de hackear-se a si mesma a partir da existência manifesta."
Para o texto completo - em inglês :
http://www.neme.org/main/291/hacker-manifesto
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Culto do Êxtase*
Respeitável público, parece cada vez mais difícil separar 'realidade' de 'ficção', até por que a distinção sempre foi uma questão de ponto de vista: os deuses de alguns são os demônios dos outros, é a natureza humana e pronto.Só que agora - nos últimos 10 anos - os chamados acadêmicos estão se debruçando com seriedade sobre os universos no interior da casquinha civilizada e tendo insights extraordinários.
Em que pese que Freud, Jung, o antropólogo Mircea Eliade e o renomado mitologista Dr. Campbell ( além de vários outros luminares, incluindo físicos agraciados com prêmios Nobel) andaram às voltas com sonhos, símbolos e mitos, tal fato não foi,necessariamente, um sinal de que o restante da Academia estava se dispondo a advogar essa atitude. Bem ao contrário. Não fosse o fato de que a Psicanálise , a cura xamânica e a Física Quântica realmente funcionam na prática - calando assim os detratores - ninguém de fora da comunidade científica saberia nada sobre estes avanços na direção do diálogo interdisciplinar.
Mas nós somos uma sociedade de informação, certo? Qualquer resultado de pesquisa pode ser rastreado até sua origem na mais obscura universidade do planeta em questão de minutos, o que deixa os cientistas bem mais vulneráveis ao olhar crítico do público. Ainda não dá para fazer o mesmo com a Religião em si, mas certamente dá para apedrejar sacerdotes que não se comportam bem, seja a sua 'fé' materialista ou idealista.É um senhor avanço.
Do mesmo jeito que se pode ter uma ciência particular, pode-se ter uma fé sob medida , e é aqui que o meu olhar tem repousado. Fico feliz em saber que não só o meu. Encontrei um ensaio sobre a relação entre música eletrônica e transe xamânico coletivo.O artigo todo é grande, de modo que vou editá-lo um pouquinho. Espero que o autor não se importe com o fato de eu citá-lo sem permissão (...), mas estou citando a fonte abaixo:
IFCH-Unicamp – CTeMe – FAPESP
Apresentação ao NuTI (Núcleo de Transformações Indígenas), UFRJ-Museu Nacional, Rio de Janeiro
14 de outubro de 2005.
O DIFERENCIAL DESTA PESQUISA
Esta pesquisa não é sobre DJs, festas de música eletrônica, freqüentadores de festas de música eletrônica, ou fãs de música eletrônica [11]. Em última instância, não pesquisamos pessoas, mas sim as relações entre pessoas e música em um contexto de "imersão" e "captura do movimento". O objeto de estudo direto desta pesquisa não foram, portanto, as pessoas (apesar de termos freqüentado festas realizado diversas entrevistas), mas sim aquilo que consideramos a materialização de uma relação som-movimento [12]: as músicas eletrônicas de pista [13] como rastro analisável de um processo sociotécnico.
Para levar a sério o xamanismo dos DJs, mostrou-se necessário desbloquear seu discurso. Para desbloquear seu discurso, foi preciso rever e questionar os conceitos mistos e as questões mal formuladas através dos quais ele era construído [14]. Para fazer isso tivemos que encontrar o nexo de todo o fenômeno, que se revelou como a imersão do corpo no som através de técnicas de captura do movimento. No limite, esta pesquisa é, assim, sobre a interface som-movimento. Teremos alcançado nosso objetivo se formos capazes de oferecer novos conceitos e novas vias de acesso a um fenômeno que atualmente é ainda visto com óculos que consideramos ultrapassados [15].
O QUE DISTINGUE A MÚSICA ELETRÔNICA
A música eletrônica de pista possui diversos "mitos de origem", dos quais três se destacam: (1) o que remete suas origens aos "rituais primitivos" de "nossos ancestrais" [16]; (2) o que remete suas origens à tradição erudita (música concreta e eletroacústica) [17]; e (3) o que remete suas origens às experimentações de DJs negros e homossexuais de Nova Iorque e Chicago nos anos 70/80 [18]. Todas essas perspectivas têm alguma consistência histórica, e não seria possível escolher uma delas em detrimento das outras (pelo contrário, elas geralmente se misturam em porções desiguais nas narrativas). Mas existe algo que todas elas deixam de fora, justamente aquilo que nos parece ser o grande diferencial da música eletrônica: a exploração estética e funcional da precisão técnica, que se torna possível no final do século XIX com as primeiras tecnologias de gravação mecânica e transdução eletroacústica e se torna cada vez mais concreta e acessível ao longo do século XX, enriquecida ainda pelo desenvolvimento da gravação digital nos anos 70. Acreditamos que além das origens rituais da música eletrônica, além da ruptura de paradigmas estéticos tradicionais que ela representa, além das identidades étnicas e sexuais a que ela está historicamente vinculada, existe nela uma ênfase na funcionalidade a-significante, no trabalho dos maquinismos formadores dos movimentos e hábitos [19], que ao mesmo tempo a distingue de todas as outras músicas (baseadas na expressividade) e a conecta com uma linhagem filogenética maquínica que tem no som sua concretização mais completa.
Propomos, portanto, como característica distintiva da música eletrônica de pista, o uso da precisão técnica no controle dos parâmetros sonoros para capturar e modular movimentos [20]. Daí a possibilidade de traçar uma linhagem evolutiva da música eletrônica que atravessa não apenas a música feita com aparelhos eletrônicos mas também as músicas rituais tradicionais, e até mesmo os sons de animais, insetos e da própria matéria: trata-se da transversal dos maquinismos [21], que vão da microfísica à macrofísica (do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, para não falar do infinitamente rápido e do infinitamente lento), passando pelas dimensões e velocidades que nos são acessíveis. O maquínico é o a-significante, é o que apenas é, pura causalidade (mesmo que ainda não reconhecida como tal). É sobre a dimensão maquínica da realidade que o controle técnico é operado, e isso é feito através dos processos de atualização e virtualização de maquinismos. Máquinas técnicas são a concretização atual de maquinismos virtuais e abstratos que então passam a ser mecanismos, isolados de toda uma dimensão caótica (ou melhor, "caosmótica", autopoiética, onde formação e funcionamento coincidem) que antes impossibilitava o seu controle técnico.
A operação específica da música eletrônica pode ser compreendida através do conceito de desterritorialização. Uma gravação ou uma transdução eletroacústica é uma desterritorialização técnica do som que permite um certo grau de controle sobre um certo número de parâmetros. O registro da onda sonora, a captura de seu rastro em uma forma ou código reconvertível em som, foi um passo crucial no desenvolvimento da música eletrônica, pois a partir desse momento o controle deixou de incidir sobre o organismo produtor do som deslocando-se para a máquina técnica reprodutora do som (mais do que uma desterritorialização de um ritornelo sonoro [22], vemos aqui uma desterritorialização de todo um meio associado a esse ritornelo; uma desterritorialização dupla).
Apesar das constantes tentativas de legitimar a música eletrônica através de sua aproximação a valores musicais tradicionais e a sonoridades acústicas e orgânicas [24], acreditamos que a sonoridade artificial e impessoal da música eletrônica não é uma falta a ser justificada ou um defeito a ser corrigido mas sim a conseqüência de uma outra relação com a própria música (talvez o próprio termo "música" se torne aqui inoperante [25]), em que a identificação com o artista e suas emoções e a busca da beleza são menos importantes do que a eficácia funcional na produção do movimento [26].
MAS O QUE ISSO TEM A VER COM XAMANISMO?
De fato, é difícil sustentar uma relação direta entre o uso que os DJs fazem da tecnologia musical contemporânea (aquilo que chamamos de as técnicas do êxtase da música eletrônica) e as práticas rituais xamânicas de sociedades tradicionais sem apelar para simplificações tanto da música eletrônica quanto do xamanismo(...a compreensão das relações entre música eletrônica e xamanismo depende da revisão tanto daquilo que entendemos por música eletrônica quanto daquilo que entendemos por xamanismo. A transição dos valores musicais tradicionais expressivos para o controle técnico de parâmetros de captura do movimento(...parece estar diretamente associada ao desenvolvimento de uma sensibilidade urbana contemporânea, fruto da imersão em uma paisagem sonora totalmente ligada aos ruídos das máquinas e da constante exigência de sincronização entre nossos próprios ritmos (corporais, mentais, sociais...) e os ritmos mecânicos e repetitivos de inúmeras máquinas técnicas [28]. A automatização de nossa relação com as máquinas nos coloca em estado de sujeição constante: respondemos automaticamente aos sons das máquinas, pois disso parece depender nossa participação nessa sociedade. Se a arte trabalha de fato sobre os automatismos inconscientes [29], então não é surpreendente que cada sociedade (com seus automatismos compartilhados) desenvolva sua própria estética específica. Por tudo isso é compreensível que a música eletrônica, com sua precisão impessoal e seus timbres e parâmetros intrinsecamente tecnológicos, vá mais fundo naquilo que realmente move nossa sociedade contemporânea do que músicas populares tradicionais ou mesmo reterritorializações de estéticas urbanas. E esse parece ser, afinal, um dos mais consistentes argumentos que a própria música eletrônica pode levantar em defesa de seu potencial xamânico.
Entendemos que existem muitas maneiras de conceber o xamanismo além da New Age, dentre as quais: pode-se negar a existência do fenômeno, alegando que ele não passa de uma ilusão projetada sobre práticas rituais muito diversas [30]; pode-se tentar consolidá-lo como fenômeno generalizável através de axiomas mais ou menos rígidos e excludentes [31]; pode-se concebê-lo como uma prática "primitiva" superada pela tecnociência e hoje limitada a aspectos subjetivos, simbólicos, enfim, ao "parque natural da arte" [32]; pode-se enfim considerá-lo puro charlatanismo [33]. Mas já existe atualmente material etnográfico suficiente para que pesquisadores de outras áreas escapem de todas essas generalizações e alcancem uma compreensão mais profunda do fenômeno a partir de casos específicos. No caso do xamanismo sul-americano em especial, já se observa inclusive a construção de uma macroteoria extremamente consistente sobre seu "fundamento teórico e campo de operação" [34] – o perspectivismo ameríndio – que vem contribuindo enormemente para a difusão de uma imagem menos estereotipada do fenômeno [35].
Parece-nos que apesar de não ser possível falar de um "xamanismo" universal, apenas de xamanismos particulares, ainda assim é útil construir um conceito operacional de xamanismo que possibilite o acúmulo e a interconexão de conhecimentos sobre este tipo de prática ritual geralmente não institucionalizada e geralmente baseada na relação com o fora – da sociedade, do mundo humano, do estado normal de consciência etc. Nesse sentido, parece-nos que a fórmula inicial de Eliade (xamanismo=técnicas do êxtase [36]) tem um potencial muito maior do que seu próprio proponente e seus seguidores puderam reconhecer. E tudo indica que o principal obstáculo à plena apreciação da definição eliadeana de xamanismo foi tão somente a persistência de conceitos extremamente limitados de "técnica", "êxtase" e "corpo, entre outros, frutos de muitos mal-entendidos com relação aos dualismos nos quais se baseiam esses conceitos (corpo/alma, matéria/espírito, consciência/inconsciente, sujeito/objeto, natural/artificial, dentro/fora etc.). Nossa proposta para rever o conceito de xamanismo passa, assim, pela revisão de conceitos como "técnica" (que deixa de ser algo que se opõe à natureza, ao organismo, e passa a ser a concretização de potências maquínicas da própria natureza, dos próprios organismos) de "êxtase" (que deixa de ser uma relação "entre" o dentro e o fora – ek-stasis como "estar fora" – e passa a ser a produção mútua e contínua destes pólos – ek-stasis como "o dentro do fora") e de "corpo" (que deixa de ser uma substância dada e passa a ser um feixe de relações), entre outros [37].
Uma vez feita a revisão dos conceitos de música eletrônica e xamanismo parece-nos possível propor uma nova maneira de compreender os fenômenos a que se referem, uma maneira que nos parece mais produtiva por aparentemente dar conta de um maior número de casos do que o discurso New Age nativo. Não precisamos aqui escolher uma mitologia em detrimento de outra, um sistema simbólico em lugar de outro. Pretendemos ir além, para o campo pré-simbólico, a-significante, das causalidades determinantes pois que totalmente determinadas. Preferimos nos situar, de início, no terreno árido do não-humano pois mesmo se soubéssemos claramente o que é o humano (coisa que não sabemos de fato [38]), ele ainda assim seria apenas uma parte do mundo ao qual estamos ligados e sem o qual não podemos existir.
Olhamos para a música eletrônica, portanto, como parte de um processo de constante concretização de maquinismos virtuais que vêm das profundezas moleculares, atravessa todo o mundo sensível e continua até a mecanosfera, processo esse cujo paralelo mais consistente são justamente as práticas xamânicas [39]. Interpretamos opções técnicas e estéticas dos DJs sobre velocidades, freqüências, intensidades, estrutura musical, modulações do som etc. como a atualização prática de tendências virtuais ao movimento que se situam no terreno do inconsciente maquínico: "esquizoanálises em ato" [40]. Consideramos as gravações usadas pelos DJs, assim como seus sets, como documentos, rastros analisáveis de um processo global que envolve a transformação dos corpos através do trabalho contínuo sobre suas relações automáticas com as máquinas concretas e abstratas, técnicas e desejantes/sociais do cotidiano. Todo um trabalho de sintonia de ressonâncias, estratificação e modulação de velocidades, freqüências e intensidades, percepção e transformação dos limites e das capacidades do corpo que sempre foram o domínio da música [41], mas que agora se dão em um contexto social completamente mediado tecnologicamente. Não é o fato de ser feita com máquinas eletrônicas que tornaria a música eletrônica mais xamânica do que as outras músicas, mas sim o seu efeito sobre uma sociedade totalmente tecnológica. É porque somos, em muitos aspectos, ciborgues [42], que a música eletrônica tem uma eficácia maior sobre nós – outros maquinismos obedeceriam a outras estéticas.
Não vemos utilidade nenhuma, portanto, em estabelecer paralelos simplistas entre práticas xamânicas tradicionais e as técnicas do êxtase da música eletrônica (como relacionar o transe do "tambor primitivo" ao transe do bumbo do Techno, a aplicação de teorias orientais e asiáticas sobre modos musicais, mantras e chacras à música Trance, ou o uso do "calendário Maia" como base para o cronograma de raves [43]). Se existem paralelos, eles estão sendo procurados no campo da complexidade virtual, no terreno daquilo que ainda não sabemos tanto sobre o xamanismo quanto sobre a música eletrônica, mas principalmente sobre o ser humano."
Clique no link abaixo para o texto completo, notas e bibliografia:
http://nansi.abaetenet.net/abaetextos/m%C3%BAsica-eletr%C3%B4nica-e-xamanismo
*Culto do Êxtase: uma das Tradições do jogo de RPG 'Mage, a Ascensão'.Um pouquinho sobre eles( texto editado do Manual):
Através da dança, música e paixão, o Culto do Êxtase cria a magia do transe e do êxtase. Empurrando o passado além dos limites e zonas de conforto da humanidade, eles buscam a experiência final. Eles são os descendentes dos antigos ascetas - embora agora usem drogas, sexo, piercing e vivam na metrópole, em vez de meditar sozinhos no deserto (embora Cultistas usem sexo, drogas, meditação, vida holística, e música como instrumentos de focalização na busca da visão, eles os consideram sacramentos e não hobbies).
Os extáticos são visionários, xamãs e aventureiros dos sentidos. Suas artes são tão antigas como o tempo e o próprio tempo é o seu brinquedo. Embora possam parecer irresponsáveis,isso é porque poucas pessoas de fora vêm as coisas à sua maneira. Simplesmente porque o mago é uma parte do Culto do Êxtase, de maneira nenhuma, deve ser visto como um hippie inútil, viciado ou maníaco sexual.
Cultistas cedo perceberam o quanto era importante ter uma estrutura forte; nenhum grupo construído no hedonismo total poderia sobreviver por muito tempo.Conforme as sociedades se tornaram mais reprimidas, extáticos rebelaram-se, jogando fora todas as regras( inclusive as suas próprias) . Na década de '60 ', uma grande revolução ocorreu, e os extáticos foram responsabilizados pelos excessos. Infelizmente,a maioria dos membros perdeu-se, e as gerações seguintes aprenderam todas as lições erradas com seu exemplo. O Culto perdeu muito terreno, porque as pessoas não percebiam as conseqüências de suas ações. Os extáticos modernos estão tentando aprender com seus erros, e assim ressuscitaram os velhos protocolos . O Código de Ananda*(ver) é apenas um exemplo da maneira pela qual Cultistas dispõe-se a reconhecer as responsabilidades conferidas por seus incríveis. poderes."
Em que pese que Freud, Jung, o antropólogo Mircea Eliade e o renomado mitologista Dr. Campbell ( além de vários outros luminares, incluindo físicos agraciados com prêmios Nobel) andaram às voltas com sonhos, símbolos e mitos, tal fato não foi,necessariamente, um sinal de que o restante da Academia estava se dispondo a advogar essa atitude. Bem ao contrário. Não fosse o fato de que a Psicanálise , a cura xamânica e a Física Quântica realmente funcionam na prática - calando assim os detratores - ninguém de fora da comunidade científica saberia nada sobre estes avanços na direção do diálogo interdisciplinar.
Mas nós somos uma sociedade de informação, certo? Qualquer resultado de pesquisa pode ser rastreado até sua origem na mais obscura universidade do planeta em questão de minutos, o que deixa os cientistas bem mais vulneráveis ao olhar crítico do público. Ainda não dá para fazer o mesmo com a Religião em si, mas certamente dá para apedrejar sacerdotes que não se comportam bem, seja a sua 'fé' materialista ou idealista.É um senhor avanço.
Do mesmo jeito que se pode ter uma ciência particular, pode-se ter uma fé sob medida , e é aqui que o meu olhar tem repousado. Fico feliz em saber que não só o meu. Encontrei um ensaio sobre a relação entre música eletrônica e transe xamânico coletivo.O artigo todo é grande, de modo que vou editá-lo um pouquinho. Espero que o autor não se importe com o fato de eu citá-lo sem permissão (...), mas estou citando a fonte abaixo:
Música eletrônica e xamanismo (Pedro Peixoto Ferreira)
Algumas considerações sobre o estudo das relações entre música eletrônica e xamanismo
Pedro Peixoto FerreiraIFCH-Unicamp – CTeMe – FAPESP
Apresentação ao NuTI (Núcleo de Transformações Indígenas), UFRJ-Museu Nacional, Rio de Janeiro
14 de outubro de 2005.
O DIFERENCIAL DESTA PESQUISA
Esta pesquisa não é sobre DJs, festas de música eletrônica, freqüentadores de festas de música eletrônica, ou fãs de música eletrônica [11]. Em última instância, não pesquisamos pessoas, mas sim as relações entre pessoas e música em um contexto de "imersão" e "captura do movimento". O objeto de estudo direto desta pesquisa não foram, portanto, as pessoas (apesar de termos freqüentado festas realizado diversas entrevistas), mas sim aquilo que consideramos a materialização de uma relação som-movimento [12]: as músicas eletrônicas de pista [13] como rastro analisável de um processo sociotécnico.
Para levar a sério o xamanismo dos DJs, mostrou-se necessário desbloquear seu discurso. Para desbloquear seu discurso, foi preciso rever e questionar os conceitos mistos e as questões mal formuladas através dos quais ele era construído [14]. Para fazer isso tivemos que encontrar o nexo de todo o fenômeno, que se revelou como a imersão do corpo no som através de técnicas de captura do movimento. No limite, esta pesquisa é, assim, sobre a interface som-movimento. Teremos alcançado nosso objetivo se formos capazes de oferecer novos conceitos e novas vias de acesso a um fenômeno que atualmente é ainda visto com óculos que consideramos ultrapassados [15].
O QUE DISTINGUE A MÚSICA ELETRÔNICA
A música eletrônica de pista possui diversos "mitos de origem", dos quais três se destacam: (1) o que remete suas origens aos "rituais primitivos" de "nossos ancestrais" [16]; (2) o que remete suas origens à tradição erudita (música concreta e eletroacústica) [17]; e (3) o que remete suas origens às experimentações de DJs negros e homossexuais de Nova Iorque e Chicago nos anos 70/80 [18]. Todas essas perspectivas têm alguma consistência histórica, e não seria possível escolher uma delas em detrimento das outras (pelo contrário, elas geralmente se misturam em porções desiguais nas narrativas). Mas existe algo que todas elas deixam de fora, justamente aquilo que nos parece ser o grande diferencial da música eletrônica: a exploração estética e funcional da precisão técnica, que se torna possível no final do século XIX com as primeiras tecnologias de gravação mecânica e transdução eletroacústica e se torna cada vez mais concreta e acessível ao longo do século XX, enriquecida ainda pelo desenvolvimento da gravação digital nos anos 70. Acreditamos que além das origens rituais da música eletrônica, além da ruptura de paradigmas estéticos tradicionais que ela representa, além das identidades étnicas e sexuais a que ela está historicamente vinculada, existe nela uma ênfase na funcionalidade a-significante, no trabalho dos maquinismos formadores dos movimentos e hábitos [19], que ao mesmo tempo a distingue de todas as outras músicas (baseadas na expressividade) e a conecta com uma linhagem filogenética maquínica que tem no som sua concretização mais completa.
Propomos, portanto, como característica distintiva da música eletrônica de pista, o uso da precisão técnica no controle dos parâmetros sonoros para capturar e modular movimentos [20]. Daí a possibilidade de traçar uma linhagem evolutiva da música eletrônica que atravessa não apenas a música feita com aparelhos eletrônicos mas também as músicas rituais tradicionais, e até mesmo os sons de animais, insetos e da própria matéria: trata-se da transversal dos maquinismos [21], que vão da microfísica à macrofísica (do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, para não falar do infinitamente rápido e do infinitamente lento), passando pelas dimensões e velocidades que nos são acessíveis. O maquínico é o a-significante, é o que apenas é, pura causalidade (mesmo que ainda não reconhecida como tal). É sobre a dimensão maquínica da realidade que o controle técnico é operado, e isso é feito através dos processos de atualização e virtualização de maquinismos. Máquinas técnicas são a concretização atual de maquinismos virtuais e abstratos que então passam a ser mecanismos, isolados de toda uma dimensão caótica (ou melhor, "caosmótica", autopoiética, onde formação e funcionamento coincidem) que antes impossibilitava o seu controle técnico.
A operação específica da música eletrônica pode ser compreendida através do conceito de desterritorialização. Uma gravação ou uma transdução eletroacústica é uma desterritorialização técnica do som que permite um certo grau de controle sobre um certo número de parâmetros. O registro da onda sonora, a captura de seu rastro em uma forma ou código reconvertível em som, foi um passo crucial no desenvolvimento da música eletrônica, pois a partir desse momento o controle deixou de incidir sobre o organismo produtor do som deslocando-se para a máquina técnica reprodutora do som (mais do que uma desterritorialização de um ritornelo sonoro [22], vemos aqui uma desterritorialização de todo um meio associado a esse ritornelo; uma desterritorialização dupla).
Apesar das constantes tentativas de legitimar a música eletrônica através de sua aproximação a valores musicais tradicionais e a sonoridades acústicas e orgânicas [24], acreditamos que a sonoridade artificial e impessoal da música eletrônica não é uma falta a ser justificada ou um defeito a ser corrigido mas sim a conseqüência de uma outra relação com a própria música (talvez o próprio termo "música" se torne aqui inoperante [25]), em que a identificação com o artista e suas emoções e a busca da beleza são menos importantes do que a eficácia funcional na produção do movimento [26].
MAS O QUE ISSO TEM A VER COM XAMANISMO?
De fato, é difícil sustentar uma relação direta entre o uso que os DJs fazem da tecnologia musical contemporânea (aquilo que chamamos de as técnicas do êxtase da música eletrônica) e as práticas rituais xamânicas de sociedades tradicionais sem apelar para simplificações tanto da música eletrônica quanto do xamanismo(...a compreensão das relações entre música eletrônica e xamanismo depende da revisão tanto daquilo que entendemos por música eletrônica quanto daquilo que entendemos por xamanismo. A transição dos valores musicais tradicionais expressivos para o controle técnico de parâmetros de captura do movimento(...parece estar diretamente associada ao desenvolvimento de uma sensibilidade urbana contemporânea, fruto da imersão em uma paisagem sonora totalmente ligada aos ruídos das máquinas e da constante exigência de sincronização entre nossos próprios ritmos (corporais, mentais, sociais...) e os ritmos mecânicos e repetitivos de inúmeras máquinas técnicas [28]. A automatização de nossa relação com as máquinas nos coloca em estado de sujeição constante: respondemos automaticamente aos sons das máquinas, pois disso parece depender nossa participação nessa sociedade. Se a arte trabalha de fato sobre os automatismos inconscientes [29], então não é surpreendente que cada sociedade (com seus automatismos compartilhados) desenvolva sua própria estética específica. Por tudo isso é compreensível que a música eletrônica, com sua precisão impessoal e seus timbres e parâmetros intrinsecamente tecnológicos, vá mais fundo naquilo que realmente move nossa sociedade contemporânea do que músicas populares tradicionais ou mesmo reterritorializações de estéticas urbanas. E esse parece ser, afinal, um dos mais consistentes argumentos que a própria música eletrônica pode levantar em defesa de seu potencial xamânico.
Entendemos que existem muitas maneiras de conceber o xamanismo além da New Age, dentre as quais: pode-se negar a existência do fenômeno, alegando que ele não passa de uma ilusão projetada sobre práticas rituais muito diversas [30]; pode-se tentar consolidá-lo como fenômeno generalizável através de axiomas mais ou menos rígidos e excludentes [31]; pode-se concebê-lo como uma prática "primitiva" superada pela tecnociência e hoje limitada a aspectos subjetivos, simbólicos, enfim, ao "parque natural da arte" [32]; pode-se enfim considerá-lo puro charlatanismo [33]. Mas já existe atualmente material etnográfico suficiente para que pesquisadores de outras áreas escapem de todas essas generalizações e alcancem uma compreensão mais profunda do fenômeno a partir de casos específicos. No caso do xamanismo sul-americano em especial, já se observa inclusive a construção de uma macroteoria extremamente consistente sobre seu "fundamento teórico e campo de operação" [34] – o perspectivismo ameríndio – que vem contribuindo enormemente para a difusão de uma imagem menos estereotipada do fenômeno [35].
Parece-nos que apesar de não ser possível falar de um "xamanismo" universal, apenas de xamanismos particulares, ainda assim é útil construir um conceito operacional de xamanismo que possibilite o acúmulo e a interconexão de conhecimentos sobre este tipo de prática ritual geralmente não institucionalizada e geralmente baseada na relação com o fora – da sociedade, do mundo humano, do estado normal de consciência etc. Nesse sentido, parece-nos que a fórmula inicial de Eliade (xamanismo=técnicas do êxtase [36]) tem um potencial muito maior do que seu próprio proponente e seus seguidores puderam reconhecer. E tudo indica que o principal obstáculo à plena apreciação da definição eliadeana de xamanismo foi tão somente a persistência de conceitos extremamente limitados de "técnica", "êxtase" e "corpo, entre outros, frutos de muitos mal-entendidos com relação aos dualismos nos quais se baseiam esses conceitos (corpo/alma, matéria/espírito, consciência/inconsciente, sujeito/objeto, natural/artificial, dentro/fora etc.). Nossa proposta para rever o conceito de xamanismo passa, assim, pela revisão de conceitos como "técnica" (que deixa de ser algo que se opõe à natureza, ao organismo, e passa a ser a concretização de potências maquínicas da própria natureza, dos próprios organismos) de "êxtase" (que deixa de ser uma relação "entre" o dentro e o fora – ek-stasis como "estar fora" – e passa a ser a produção mútua e contínua destes pólos – ek-stasis como "o dentro do fora") e de "corpo" (que deixa de ser uma substância dada e passa a ser um feixe de relações), entre outros [37].
Uma vez feita a revisão dos conceitos de música eletrônica e xamanismo parece-nos possível propor uma nova maneira de compreender os fenômenos a que se referem, uma maneira que nos parece mais produtiva por aparentemente dar conta de um maior número de casos do que o discurso New Age nativo. Não precisamos aqui escolher uma mitologia em detrimento de outra, um sistema simbólico em lugar de outro. Pretendemos ir além, para o campo pré-simbólico, a-significante, das causalidades determinantes pois que totalmente determinadas. Preferimos nos situar, de início, no terreno árido do não-humano pois mesmo se soubéssemos claramente o que é o humano (coisa que não sabemos de fato [38]), ele ainda assim seria apenas uma parte do mundo ao qual estamos ligados e sem o qual não podemos existir.
Olhamos para a música eletrônica, portanto, como parte de um processo de constante concretização de maquinismos virtuais que vêm das profundezas moleculares, atravessa todo o mundo sensível e continua até a mecanosfera, processo esse cujo paralelo mais consistente são justamente as práticas xamânicas [39]. Interpretamos opções técnicas e estéticas dos DJs sobre velocidades, freqüências, intensidades, estrutura musical, modulações do som etc. como a atualização prática de tendências virtuais ao movimento que se situam no terreno do inconsciente maquínico: "esquizoanálises em ato" [40]. Consideramos as gravações usadas pelos DJs, assim como seus sets, como documentos, rastros analisáveis de um processo global que envolve a transformação dos corpos através do trabalho contínuo sobre suas relações automáticas com as máquinas concretas e abstratas, técnicas e desejantes/sociais do cotidiano. Todo um trabalho de sintonia de ressonâncias, estratificação e modulação de velocidades, freqüências e intensidades, percepção e transformação dos limites e das capacidades do corpo que sempre foram o domínio da música [41], mas que agora se dão em um contexto social completamente mediado tecnologicamente. Não é o fato de ser feita com máquinas eletrônicas que tornaria a música eletrônica mais xamânica do que as outras músicas, mas sim o seu efeito sobre uma sociedade totalmente tecnológica. É porque somos, em muitos aspectos, ciborgues [42], que a música eletrônica tem uma eficácia maior sobre nós – outros maquinismos obedeceriam a outras estéticas.
Não vemos utilidade nenhuma, portanto, em estabelecer paralelos simplistas entre práticas xamânicas tradicionais e as técnicas do êxtase da música eletrônica (como relacionar o transe do "tambor primitivo" ao transe do bumbo do Techno, a aplicação de teorias orientais e asiáticas sobre modos musicais, mantras e chacras à música Trance, ou o uso do "calendário Maia" como base para o cronograma de raves [43]). Se existem paralelos, eles estão sendo procurados no campo da complexidade virtual, no terreno daquilo que ainda não sabemos tanto sobre o xamanismo quanto sobre a música eletrônica, mas principalmente sobre o ser humano."
Clique no link abaixo para o texto completo, notas e bibliografia:
http://nansi.abaetenet.net/abaetextos/m%C3%BAsica-eletr%C3%B4nica-e-xamanismo
*Culto do Êxtase: uma das Tradições do jogo de RPG 'Mage, a Ascensão'.Um pouquinho sobre eles( texto editado do Manual):
Culto do Êxtase
"Magos do Culto do Êxtase são videntes intuitivos que usam a estimulação sensorial e técnicas e meditação para a expansão de consciência . Eles são mestres da esfera do Tempo.Através da dança, música e paixão, o Culto do Êxtase cria a magia do transe e do êxtase. Empurrando o passado além dos limites e zonas de conforto da humanidade, eles buscam a experiência final. Eles são os descendentes dos antigos ascetas - embora agora usem drogas, sexo, piercing e vivam na metrópole, em vez de meditar sozinhos no deserto (embora Cultistas usem sexo, drogas, meditação, vida holística, e música como instrumentos de focalização na busca da visão, eles os consideram sacramentos e não hobbies).
Os extáticos são visionários, xamãs e aventureiros dos sentidos. Suas artes são tão antigas como o tempo e o próprio tempo é o seu brinquedo. Embora possam parecer irresponsáveis,isso é porque poucas pessoas de fora vêm as coisas à sua maneira. Simplesmente porque o mago é uma parte do Culto do Êxtase, de maneira nenhuma, deve ser visto como um hippie inútil, viciado ou maníaco sexual.
Cultistas cedo perceberam o quanto era importante ter uma estrutura forte; nenhum grupo construído no hedonismo total poderia sobreviver por muito tempo.Conforme as sociedades se tornaram mais reprimidas, extáticos rebelaram-se, jogando fora todas as regras( inclusive as suas próprias) . Na década de '60 ', uma grande revolução ocorreu, e os extáticos foram responsabilizados pelos excessos. Infelizmente,a maioria dos membros perdeu-se, e as gerações seguintes aprenderam todas as lições erradas com seu exemplo. O Culto perdeu muito terreno, porque as pessoas não percebiam as conseqüências de suas ações. Os extáticos modernos estão tentando aprender com seus erros, e assim ressuscitaram os velhos protocolos . O Código de Ananda*(ver) é apenas um exemplo da maneira pela qual Cultistas dispõe-se a reconhecer as responsabilidades conferidas por seus incríveis. poderes."
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Os Alquimistas estão Chegando (ou já estão aqui e não os vimos)
Vamos explorar melhor a relação entre Tecnologia. Artes e Magia ( que é, neste contexto, algo bem diferente do significado 'civilizado' do termo). Começaremos pelas artes visuais, mais precisamente o reino rarefeito e limítrofe dos quadrinhos.Com a palavra, um 'papa' ( desculpe o trocadilho, foi irresistível) Alan Moore. O texto saiu do 'oráculo da magia (yahoogroups)':
" Concepções xamanicas de Alan Moore
Alan Moore defende a idéia, que segundo nossas leituras antropológicas é bem alicerçada, de que a magia é uma ciência da língua, portanto ser escritor é o primeiro passo para ser um xamã. Tanto que muitos magos se referem a magia como “A ARTE”. Neste caso a magia, assim como a arte, é a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens, para mudar à consciência. Como a arte e a magia são permeáveis, lógico é pela arte que se exprime conceitos mágicos.
Moore da os seguintes exemplos: “Grimório, ou livro dos encantamentos, é um modo floreado de se dizer gramática”, “encantamento é manipulação de palavras”, “a história da magia fala mais de escrever e pintar do que de ocorrências sobrenaturais”, “cultura é sinónimo de culto”.
Um exemplo de xamãs modernos séria segundo Moore os publicitários, que usam da linguagem (da magia), para moldar a cultura e as consciências, mas não para despertar as pessoas, o que deveria ser o papel do xamã, e sim para adormecê-las e controlá-las.
Para Alan Moore isso acontece porque não é o publico que deve definir o que o artista deve dar para eles, é o artista que deve dar o que eles necessitam, mesmo que não saibam disto. Os comentários do bardo inglês passam então a fazer menção aos objetivos da magia e como o monoteísmo é um corrupção da verdadeira magia.
A magia ocidental séria uma busca pelo verdadeiro EU, mas infelizmente as pessoas em geral não estariam interessadas em seu verdadeiro EU e nas responsabilidades que este traria, preferindo se obliterar. Já o monoteísmo (judaico, cristão, muçulmano), séria uma simplificação do politeísmo e sua multiplicidade de deuses, onde cada deus representa uma espécie de letra do alfabeto, formando uma língua que explana a totalidade de significados, uma ligação entre o homem e sua parte divina.
Com o monoteísmo esta ligação não seria mais possível, já que com uma única letra não é possível construir uma totalidade de significados, por isso a necessidade de intermediários (padres, pastores, e etc.), nas religiões monoteístas, onde a ligação do homem com sua parte divina não é mais possível.
Moore prossegue argumentando que habitamos dois mundos, o físico e o da consciência, e assim como para descobrirmos este mundo físico precisamos de mapas, para descobrir nosso mundo mental precisamos também de mapas, e estes são os sistemas de magia da antiguidade: Cabala e Tarot, por exemplo. É interessante que Moore não fale sobre Alquimia, que séria um destes mapas conceituais.
Por fim Moore fala da importância da valorização da tradição cultural de todos os povos, da necessidade que nossa sociedade teve de passar pelo iluminismo, e da recente aproximação entre ciência e magia, que estaria ocorrendo nas fronteiras da física quântica. O bardo inglês conclui então que poderíamos, devido ao excesso de dados produzido pela nossa cultura, estar caminhando para a derradeira complexidade e para a ebulição social, mas não se detém muito em explicar esta sua definição de apocalipse.
Conclusões
No vídeo Moore além de falar de sua vida pessoal e de sua produção artística se detém principalmente em suas concepções sobre magia, concepções estas que podem ser rotuladas como neoxamanismo ou neopaganismo, depende do antropólogo que as estude.
Sua concepção de magia e linguagem é realmente bastante apropriada. Sua valorização da ciência e da magia como complementares o aproxima de uma visão de mundo que poderíamos definir como tecnoshamanismo, ao estilo de Terence Mckenna e Austin Osman Spare (talvez!).
Moore ao valorizar o paganismo vai de encontro as idéias de Friedrich Nietzsche em “A Gaia Ciência”, que pretendemos comentar neste blog. Por fim é bom que o leitor tenha em mente que apesar do depoimento de Alan Moore (78 minutos), estar legendado em português, os extras estão apenas em inglês, e sem legendas."
O link para quem desejar obter o vídeo está aqui :
Este vídeo pode ser importado ou adquirido com José Carlos Neves do Site Alan Moore Senhor do Caos http://www.alanmooresenhordocaos.hpg.ig.com.br
No próximo capítulo, um excerto de um ensaio acadêmico sobre Tecnoshamanismo e Música Eletrônica.
" Concepções xamanicas de Alan Moore
Alan Moore defende a idéia, que segundo nossas leituras antropológicas é bem alicerçada, de que a magia é uma ciência da língua, portanto ser escritor é o primeiro passo para ser um xamã. Tanto que muitos magos se referem a magia como “A ARTE”. Neste caso a magia, assim como a arte, é a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens, para mudar à consciência. Como a arte e a magia são permeáveis, lógico é pela arte que se exprime conceitos mágicos.
Moore da os seguintes exemplos: “Grimório, ou livro dos encantamentos, é um modo floreado de se dizer gramática”, “encantamento é manipulação de palavras”, “a história da magia fala mais de escrever e pintar do que de ocorrências sobrenaturais”, “cultura é sinónimo de culto”.
Um exemplo de xamãs modernos séria segundo Moore os publicitários, que usam da linguagem (da magia), para moldar a cultura e as consciências, mas não para despertar as pessoas, o que deveria ser o papel do xamã, e sim para adormecê-las e controlá-las.
Para Alan Moore isso acontece porque não é o publico que deve definir o que o artista deve dar para eles, é o artista que deve dar o que eles necessitam, mesmo que não saibam disto. Os comentários do bardo inglês passam então a fazer menção aos objetivos da magia e como o monoteísmo é um corrupção da verdadeira magia.
A magia ocidental séria uma busca pelo verdadeiro EU, mas infelizmente as pessoas em geral não estariam interessadas em seu verdadeiro EU e nas responsabilidades que este traria, preferindo se obliterar. Já o monoteísmo (judaico, cristão, muçulmano), séria uma simplificação do politeísmo e sua multiplicidade de deuses, onde cada deus representa uma espécie de letra do alfabeto, formando uma língua que explana a totalidade de significados, uma ligação entre o homem e sua parte divina.
Com o monoteísmo esta ligação não seria mais possível, já que com uma única letra não é possível construir uma totalidade de significados, por isso a necessidade de intermediários (padres, pastores, e etc.), nas religiões monoteístas, onde a ligação do homem com sua parte divina não é mais possível.
Moore prossegue argumentando que habitamos dois mundos, o físico e o da consciência, e assim como para descobrirmos este mundo físico precisamos de mapas, para descobrir nosso mundo mental precisamos também de mapas, e estes são os sistemas de magia da antiguidade: Cabala e Tarot, por exemplo. É interessante que Moore não fale sobre Alquimia, que séria um destes mapas conceituais.
Por fim Moore fala da importância da valorização da tradição cultural de todos os povos, da necessidade que nossa sociedade teve de passar pelo iluminismo, e da recente aproximação entre ciência e magia, que estaria ocorrendo nas fronteiras da física quântica. O bardo inglês conclui então que poderíamos, devido ao excesso de dados produzido pela nossa cultura, estar caminhando para a derradeira complexidade e para a ebulição social, mas não se detém muito em explicar esta sua definição de apocalipse.
Conclusões
No vídeo Moore além de falar de sua vida pessoal e de sua produção artística se detém principalmente em suas concepções sobre magia, concepções estas que podem ser rotuladas como neoxamanismo ou neopaganismo, depende do antropólogo que as estude.
Sua concepção de magia e linguagem é realmente bastante apropriada. Sua valorização da ciência e da magia como complementares o aproxima de uma visão de mundo que poderíamos definir como tecnoshamanismo, ao estilo de Terence Mckenna e Austin Osman Spare (talvez!).
Moore ao valorizar o paganismo vai de encontro as idéias de Friedrich Nietzsche em “A Gaia Ciência”, que pretendemos comentar neste blog. Por fim é bom que o leitor tenha em mente que apesar do depoimento de Alan Moore (78 minutos), estar legendado em português, os extras estão apenas em inglês, e sem legendas."
O link para quem desejar obter o vídeo está aqui :
Este vídeo pode ser importado ou adquirido com José Carlos Neves do Site Alan Moore Senhor do Caos http://www.alanmooresenhordocaos.hpg.ig.com.br
No próximo capítulo, um excerto de um ensaio acadêmico sobre Tecnoshamanismo e Música Eletrônica.
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